Entrevista
- Denise Flores

- 6 de jun. de 2018
- 5 min de leitura
Na foto, à esquerda Denise com dezesseis anos (meu pai quebrou o pé quando fiz quinze, por isto, a valsa foi adiada para o ano seguinte), à direita, Denise com trinta e seis anos. Vinte anos que separam as duas fotos, para saber o que mudou, resolvi promover esta “entrevista”.
Denise 16
Como em um tabuleiro de “Jogo da Vida”, casamos, temos filhos e um carro? Um cachorro, talvez?
Denise 36
Não. Sem casamento, sem filhos. Já rolou um carro por um tempo, foi massa, depois não coube mais no bolso. Sei que o plano era um filho aos vinte anos, mas a vida foi tomando outros rumos. Tivemos alguns cachorros, hoje temos o Dyyrua, o gatinho mais fofinho do planeta, e uma louca paixão por gatos.
Denise 16
Não casamos, mas nos apaixonamos? Namoramos? Queremos casar? Ainda vamos ter filhos?
Denise 36
Tivemos algumas paixões. Namoramos, tivemos o coração partido, ficamos anos “fechadas para balanço”, curamos. Não sei responder sobre casamento. Mas queremos muito nos apaixonar e amar (quantas vezes a vida permitir).
Filhos? Acredito que teremos.
Denise 16
Nossa família. Pai, mãe, irmãs. A família cresceu? E nossa afilhada? Como estão todos?
Denise 36
Família cresceu, as meninas casaram, temos cunhados, e os planos são para que ela cresça mais. Este ano, Bia completa vinte anos e é uma moça incrível. Ganhamos mais uma afilhada, a Alícia. Alguns sobrinhos “afetivos”… Bruninho, Ceci, Raul, Clarice…Ganhamos mais um primo, o Pedrinho, e boa parte de nossos primos já são pais.
Tivemos algumas perdas, sentimos em especial a partida da Vó Iria e do Tio Rapini. Mas de uma forma geral, a família está bem.
Minha mãe está bem, moramos com ela e é bem tranquilo. Já o meu pai, se foi cedo demais. Quando estávamos com 22 anos.
Denise 16
Coração?
Denise 36
Suicídio.
Denise 16 (chocada)
Como sobrevivemos a isso?
Denise 36
Não sei ao certo. Ele teve uma vida boa, chegou a ser prefeito de Capim Branco. Quando ele se foi, foi um baque, uma lição difícil de aprender. Mas o tempo, a urgência em viver, saber que ele gostaria que seguíssemos em frente, a união da família, o cinema, amigos. O amor por ele. Sei lá, a soma destas coisas, foi colocando tudo no lugar.
Denise 16
E o vô Vicente? Você não falou sobre ele…
Está bem. Envelhecendo. Ele tem uma demência chamada Corpos de Levy, que alterou nossa rotina de emails, pesquisas e discussões. Mas ele segue sendo nossa grande paixão, professor predileto e uma grande referência em nossa vida.
Denise 16
Este ano vamos fazer a segunda prova da UNB, formamos em cinema, somos produtoras?
Denise 36
Formamos em cinema, mas não na UNB. Fizemos “Publicidade e Propaganda” na Newton e “Cinema e Vídeo” na UNA.
Não somos produtoras, mas estamos produtoras e amamos isso. Talvez aos 16 anos seja difícil entender, mas chega uma hora que percebemos que não queremos mais “ser” a profissão que escolhemos, queremos estar na nela e sermos bem sucedidas. Acredite, tem uma diferença imensa nisto.
Denise 16
Entre 16 e 17 anos tivemos uma crise de depressão bem ruim. Ela foi a única?
Infelizmente não. Tivemos mais alguns episódios. Em 2010 passamos por muitas perdas, o que foi complicado. Em 2016 tivemos a pior crise, mas também tivemos muito apoio, muito amor, superamos. Estamos bem.
Denise 16
Nossos amigos? Como estão?
Denise 36
Combinei de encontrar com a Cris no próximo sábado,no mais, se eu começar a falar, você não vai saber de quem estou falando.
O que posso dizer é que você teve colegas incríveis, que nos proporcionaram uma adolescência deliciosa e nos apoiaram em tudo. Mas os amigos, na maioria, demoraram um pouco mais para aparecer. Porém, são maravilhosos, e fazem a minha (a nossa) vida, muito melhor.
Denise 16
E as festas? Carnaval, aniversário, dia dos namorados, finados…
Denise 36
Ainda amamos todas elas. Fazemos menos festas em casa e aproveitamos mais a rua. Mas ainda somos alucinadas por fantasias de carnaval e o momento do parabéns. Celebramos dia dos namorados e finados. E tudo mais que nos dá vontade.
Denise 16
Seguimos católicas, religiosas, indo a capela/igreja quase diariamente?
Denise 36
Não. Estudamos muito, mudamos de ideia algumas vezes. Hoje, não temos religião. Mas seguimos devotas, da vida, da morte, da fé. Gostamos de rezar o evangelho segundo o espiritismo, de acender velas, fazer simpatia, benzer, ir a reunião kardecista, ao terreiro. Às vezes vamos a missa. Conversamos com as estrelas. Pedimos benção a Lua. Na verdade, nossa relação com Deus, está muito melhor agora.
Denise 16
Esta mudança de religião mudou nossa visão sobre a morte?
Denise 36
Não sei se foram as religiões ou se foi a vida. Sempre tivemos essa curiosidade sobre a morte, né? Chegamos a ir ao México para conhecer a festa dos mortos. Diria que hoje não acreditamos mais que uma pessoa precisa ser mantida viva a qualquer custo, aprendemos a respeitar a morte, acreditamos que toda pessoa tem o direito de partir com dignidade e que cuidados paliativos, muitas vezes, são os mais essenciais.
Denise 16
Ainda escrevemos diários? Escrevemos um livro? Como está nosso blog?
Denise 36
Ainda escrevemos diários. Não escrevemos um livro, mas temos dois rascunhos de ideias. Finalizamos nosso primeiro roteiro e estamos começando outro. Sobre o blog, a entrevista sairá nele, mas estamos no terceiro blog. Na sua época era o “Diário de Bordo” contando um pouco do nosso dia a dia. Depois veio o “Denise Flores” com textos sobre diversos assuntos. Agora, acredito que encontramos o formato definitivo com o “Divirta-se no caminho - um blog sobre vida, morte, dor, amor, transformação e resiliência.”
Denise 16
E o nosso visual? Cabelo? Unhas? Corpo? Alguma tatuagem?
Denise 36
Ainda gostamos do cabelo na altura dos ombros, repicado, sem pentear.
Amamos fazer as unhas, usamos esmaltes de muitas cores. Mas já conseguimos ficar sem fazer e não surtar. (risos)
Engordamos, mas paramos de tentar uma dieta por semana (na verdade acho que as dietas contribuíram para engordamos).
Brigamos com nosso corpo, não nos reconhecemos. Fizemos as pazes. Estamos numa fase delícia, cheia de descobertas.
Temos 7 tatuagens. Duas que simbolizam nós mesmas. A palavra “amor” (a Mah e a Deia tem esta mesma tatuagem). O Fernão Capelo Gaivota (“eu posso voar”), nosso livro predileto e tudo que ele significa. Este ano, fizemos uma em homenagem ao vô Vicente. Temos uma que simboliza nosso “divã” e é um registro de amizade (muito especial, por sinal). E a frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” da Simone de Beauvoir. (esta última é auto explicativa, né?)
Denise 16
Ótimo! Mas precisamos avisar as próximas Denise’s, que a velhice será com cabelo arco-íris. (risos)
Denise 36
Claro! (risos) Bem, acho que é isso. Só posso te agradecer por tudo que você nos permitiu aos 16, porque ajudou a chegarmos onde estamos hoje. Você quer fazer alguma pergunta?
Denise 16
Somos felizes?
Denise 36
Sempre que possível.






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